Os consumidores dos EUA desconfiam cada vez mais dos alimentos promovidos como ricos em proteína, apesar do boom impulsionado pelos medicamentos GLP-1. 25% usam aplicativos de escaneamento para conferir os rótulos e um terço acredita que a indústria exagera no teor proteico.
Os consumidores norte-americanos estão cada vez mais céticos em relação aos alimentos anunciados como ricos em proteína, em meio a um boom desses produtos impulsionado pelos medicamentos para emagrecer GLP-1, como o Ozempic, da Novo Nordisk, e o Mounjaro, da Eli Lilly. Os usuários desses medicamentos buscam compensar a perda de massa muscular que podem causar e afirmam que vão gastar 11% mais em alimentos ricos em proteína do que antes de iniciar o tratamento, segundo uma pesquisa de agosto do Boston Consulting Group citada pela Reuters.
Apesar de os compradores buscarem novas fontes de proteína para a dieta, entrevistas da Reuters com consumidores e executivos revelam um ceticismo crescente: alguns duvidam que os produtos contenham tanta proteína quanto sugere a publicidade, enquanto outros rejeitam aqueles com tantos aditivos ou açúcar que comprometem a sua promessa saudável.
Um relatório da NielsenIQ apontou neste ano que a indústria de snacks entrou em sua 'era da prestação de contas': 25% dos entrevistados usam aplicativos de escaneamento para conferir o valor nutricional dos produtos, contra cerca de 17% no ano anterior. 'A proteína já não é um diferencial', disse Chris Costagli, pesquisador principal de marketing da NielsenIQ e coautor do relatório.
Megan Gisela Bautista, funcionária de uma organização sem fins lucrativos em Maryland que faz treinamento de força, se decepcionou recentemente com o teor proteico de um snack de carne seca de frango que anunciava seu alto aporte em uma tipografia grande e colorida. 'Eu teria que comer cinco', disse. 'Isso faz mal para você'. Zack Spears, de Dallas, confere os rótulos nutricionais com regularidade e assiste a vídeos no YouTube de um criador de conteúdo que analisa produtos comercializados pela proteína. 'À medida que essa loucura por proteína explode e as coisas ficam mais caras, quero ter certeza de que o que coloco no meu corpo é saudável', afirmou.
Algumas marcas reconhecem o escrutínio maior. 'A proteína veio para ficar, mas a conversa precisa evoluir', disse Susan Zaripheh, diretora de pesquisa para a América do Norte da Danone. 'Os consumidores começam a olhar além do grama e estão mais bem informados sobre as nuances da fonte de proteína e da densidade de nutrientes'. Durante o verão, a empresa francesa apresentou uma ação por publicidade enganosa contra a Chobani, acusando-a de inflar as suas declarações de proteína nos rótulos ao usar tamanhos de porção não padronizados; a Chobani negou essas acusações e afirmou que sua rotulagem é precisa e transparente.
Hormel Foods, conhecida por produtos ricos em proteína como o Spam e carnes frias enlatadas, disse que evita usar aditivos para elevar a proteína. 'Acreditamos que, no longo prazo, as pessoas não querem muita ciência na sua comida', afirmou Jason Levine, diretor de marketing da Hormel, em referência a aditivos como 'proteína de soro de leite, proteína de ervilha ou isolados de proteína desenhados cientificamente'.
A Reuters identificou várias marcas que anunciam seu teor de proteína com base em porções maiores do que as usadas nas versões regulares do mesmo produto, incluindo massas, aveias e granolas. A Nature Valley, da General Mills, vende uma versão de sua granola solta 'oats n honey' que anuncia 13 gramas de proteína com base em uma porção de 2/3 de xícara (65 gramas), mais que o dobro da porção de 1/4 de xícara (27 gramas) que usa para sua granola regular sem fortificação. A General Mills considerou que a versão regular é um snack, enquanto a versão proteica pode ser consumida como snack ou como uma refeição de cereal mais completa.
Para Jonathan Bonnet, professor de Stanford e diretor médico do Ardmore Institute of Health, a relação proteína-calorias do produto indica uma 'quantidade total de proteína muito baixa', e um copo de leite desnatado fornece mais proteína do que essa porção de 2/3 de xícara. Bonnet afirmou que, ultimamente, mais pacientes lhe pedem orientação sobre a ingestão de proteína.
Apesar do ceticismo, outras empresas ampliam sua oferta para atender à demanda. A Circana informou em agosto que cerca de 48% dos adultos norte-americanos buscam adicionar proteína à sua dieta, 7 pontos a mais que no ano anterior. A rede de supermercados de desconto Aldi lançará em outubro uma nova linha de panquecas proteicas de marca própria, enquanto o Walmart venderá de novembro a janeiro, com exclusividade, um café instantâneo com proteína da Folgers, da J.M. Smucker. A Globe Market Research estimou durante o verão que o mercado global de alimentos enriquecidos com proteína valeu quase US$ 58 bilhões no ano passado.
Alguns consumidores e nutricionistas apontam que a tendência levou as pessoas a consumir mais proteína do que precisam. O relatório da NielsenIQ indicou que um terço de mais de 1.000 entrevistados acredita que a indústria está exagerando na proteína, e outro terço considera que alguns produtos têm proteína demais. Dana Hunnes, professora e nutricionista clínica da UCLA, sustenta que a pessoa média não precisa de tanta proteína quanto promove o marketing da indústria e alertou que alguns produtos comercializados pela proteína têm ingredientes processados demais para serem considerados saudáveis. 'Já vi o equivalente a uma barra de chocolate' anunciando proteína, disse. 'Só porque tem proteína não significa que seja algo que você deva comer'.